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Lobistas do agronegócio inundam as negociações climáticas da COP30 no Brasil, com a maior participação registrada até agora
BRASIL, 18 de novembro de 2025: Hoje, a DeSmog divulgou uma análise da lista de participantes da COP30 da UNFCCC que revela que mais de 302 lobistas da agroindústria (Big Ag), representando as maiores empresas agroalimentares do mundo, tiveram acesso às negociações climáticas da COP30 em Belém, Brasil.
Os principais resultados da análise DeSmog incluem:
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No total, 302 delegados da indústria de alimentos e agropecuária (Big Ag) tiveram acesso às negociações da ONU este ano. Os números mostram um aumento de 14% em relação à COP29 e um crescimento de 71% em relação à COP27. As COPs sobre o clima continuam sendo uma das prioridades estratégicas para as empresas que atuam no setor agrícola, responsáveis por até um terço das emissões globais de gases de efeito estufa.
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Este ano, um em cada quatro lobistas do agronegócio (25%) viajou para a cúpula credenciado com crachás de país —incluindo um subgrupo de seis pessoas portando crachás oficiais que garantem acesso privilegiado às negociações diplomáticas. Lobistas da indústria alimentícia viajaram para Belém integrando as delegações nacionais do Brasil, Austrália, Indonésia, Noruega, entre outras.
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Entre as empresas do agronegócio presentes dentro das delegações nacionais estavam as três maiores empresas de carne do Brasil —JBS, MBRF e Minerva—, que têm uma pegada de emissões combinada semelhante à da multinacional petrolífera britânica BP. Juntas, essas empresas levaram 13 delegados à COP30.
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A Yara, maior empresa de fertilizantes da Europa, trouxe cinco delegados junto com sua delegação nacional, a Noruega. A indústria de fertilizantes sintéticos é uma grande consumidora de combustíveis fósseis, normalmente necessários na produção de fertilizantes à base de nitrogênio, que é um dos principais motores do aumento de emissões agrícolas.
A Bayer, corporação de pesticidas, levou um número recorde de 19 delegados à COP. O Brasil é o segundo maior mercado para os pesticidas da empresa, que realizou eventos exclusivos para convidados em espaços como a “Casa da Bayer.” -
A pecuária industrial —empresas de carne, laticínios e ração— enviou 77 delegados à cúpula este ano, um aumento de 33% em relação à COP29. Essa presença equivale ao tamanho das delegações do México ou da Suíça —e é quase o dobro do número de delegados (38) enviados pela Jamaica, ilha caribenha que, em outubro, foi devastada pelo furacão Melissa.
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Outros grupos com alta participação incluem a empresa de laticínios Danone, a quarta maior empresa de laticínios do mundo (10 delegados), a Nestlé (9 delegados) e a JBS (8 delegados) —incluindo seu CEO, Gilberto Tomazoni. Outras grandes multinacionais também marcaram presença, como a gigante de commodities Cargill, que levou 5 delegados, além da empresa de alimentos e bebidas Pepsico (6) e da cadeia de fast-food McDonald's (2).
Outras conclusões são apresentadas abaixo.
O aumento na participação da indústria na COP realizada este ano no Brasil demonstra que o setor continua a considerar sua presença na conferência como uma prioridade estratégica, especialmente diante do crescente escrutínio sobre o avanço das emissões agrícolas. Com 302 participantes, o número de lobistas supera o da delegação do Canadá —a décima maior economia do mundo— que levou 220 delegados à cúpula em Belém. Grandes países e empresas do agronegócio já utilizaram as COPS, no passado, para enfraquecer os textos acordados nas negociações e se opor a soluções que, segundo cientistas do clima, são necessárias para cumprir as metas do Acordo de Paris.
Embora muitos gigantes da agricultura industrial afirmem estar fornecendo soluções para a crise climática, cientistas alertam que grande parte desses argumentos é enganosa. A JBS está entre as várias grandes empresas do setor de alimentos que enfrentam processos judiciais por deturparem seus alegações ambientais.
Cientistas também afirmam que será impossível cumprir as metas do Acordo de Paris sem mudanças profundas na forma como produzimos e consumimos alimentos. Um artigo científico de 2020 concluiu, que, mesmo com a redução do uso de combustíveis fósseis, o crescimento dos sistemas alimentares atuais, por si só, tornaria tanto a meta de 1,5°C quanto, provavelmente, a meta mais ambiciosa de 2°C, inatingível.
A principal contribuição da pecuária para as emissões vem das enormes quantidades de metano produzidas pelo gado. O setor pecuário é responsável por 32% das emissões globais de metano, sendo o maior emissor desse gás, à frente dos setores de petróleo e gás.
Hazel Healy, editora da DeSmog no Reino Unido, afirmou: “Nossa pesquisa mostra que os lobistas do agronegócio estão resistindo à regulamentação —dispostos a investir tempo, dinheiro e recursos para repetir, nas negociações climáticas da ONU, o argumento de que seu setor é a solução para a crise climática. Somados aos 1.600 lobistas de combustíveis fósseis que tiveram acesso às negociações este ano, nossas dados levantam sérias questões sobre a influência de poderosos interesses no processo da COP.”
A análise da DeSmog acompanha a pesquisa da coalizão “Kick Big Polluters Out/KBPO (Expulsem os Grandes Poluidores)” que revelou pelo menos 1.600 lobistas de combustíveis fósseis se inscreveram para a COP30, além de dados divulgados pelo Center for International Environmental Law (Centro de Direito Ambiental Internaciona), indicando que há pelo menos 530 lobistas defendendo tecnologias de captura de carbono.
Em conjunto, essas análises reforçam a necessidade de uma reconfiguração do sistema, para que ele funcione em benefício das pessoas e do planeta —e não para os grandes poluidores, como a indústria dos combustíveis fósseis e o agronegócio—, além de exigir o fim da capacidade das corporações de ditar as regras da ação climática e financiar as negociações do clima.
A iniciativa "Kick Big Polluters Out, KBPO (Expulsem os Grandes Poluidores)" é uma coalizão de mais de 450 organizações em todo o mundo, unidas para exigir o fim do poder das grandes empresas poluidoras de ditarem as regras da ação climática. Saiba mais sobre a coalizão e suas reivindicações aqui.
Mais citações de parceiros da Kick Big Polluters Out, KBPO (Expulse os Grandes Poluidores)”:
“A COP30 está sendo tomada pelos arquitetos da fome e do colapso ecológico. As sementes transgênicas do agronegócio espalham poluição genética que contamina nossas sementes nativas, destrói nossa soberania alimentar e aperta ainda mais o controle corporativo sobre nossas vidas. Os pacotes químicos que as acompanham degradam nossos solos, intensificam enchentes e prendem agricultores em dívidas. São estratégias deliberadas, pensadas para extrair lucro da nossa fome. E agora essas corporações entram na COP30 com acesso autorizado pelo Estado, enquanto pequenos agricultores, povos indígenas e defensores da terra são empurrados para fora. As soluções climáticas reais nascem dos bancos de sementes conduzidos por agricultores, dos campos agroecológicos e da luta coletiva por terra e vida. É nesses espaços que a resistência cresce e que o futuro da alimentação é retomado. Assim, enquanto Big Ag e os Grandes Poluidores não forem expulsos, nenhuma negociação pode reivindicar legitimidade. O futuro da comida e do clima não será ditado pelas corporações, será retomado pelo povo.”
Eliseo Ruzol Jr., Agricultor-Cientista para o Desenvolvimento (MASIPAG)
“Enquanto lobistas de combustíveis fósseis e do agronegócio forem autorizados a influenciar as negociações, a COP não poderá entregar justiça climática. Se a COP30 pretende ser uma COP da verdade, precisamos expor e expulsar esses bloqueadores da ação climática. Agora, mais do que nunca, precisamos de um mecanismo de responsabilização que acabe com a captura corporativa e expulse os Grandes Poluidores.”
Lidy Nacpil, Movimento dos Povos da Ásia sobre Dívida e Desenvolvimento
“Nosso sistema alimentar é escandalosamente desperdiçador: terras que poderiam produzir comida para pessoas — ou proteger a vida selvagem — são usadas para plantar grãos destinados a alimentar animais em fazendas industriais. A JBS destrói um campo de futebol de floresta tropical por dia, então por que estamos dando tratamento VIP para eles na COP30? O desmatamento impulsionado por empresas como a JBS não está ‘alimentando o mundo’, está quebrando o planeta — e animais silvestres, animais de produção e comunidades são o dano colateral.”
Elodie Guillon, Proteção Animal Mundial
“A COP30 está virando um playground para as próprias corporações que impulsionam o colapso climático e ecológico. Com mais de 1.600 lobistas de combustíveis fósseis e mais de 300 delegados do agronegócio com acesso irrestrito, não é surpresa que povos indígenas e comunidades de linha de frente estejam sendo marginalizados. Quem protege a terra é empurrado para fora, enquanto quem a destrói entra com crachá de país e tratamento VIP. Os gigantes dos combustíveis fósseis e do agronegócio estão aqui para vender falsas ‘soluções baseadas na natureza’ e proteger seus lucros — não para entregar justiça climática. Se queremos soluções reais, elas devem vir dos pequenos agricultores, dos povos indígenas e dos trabalhadores cujos meios de vida dependem de ecossistemas saudáveis. A soberania alimentar, enraizada na agroecologia camponesa e na reforma agrária popular, é o único caminho capaz de enfrentar as crises interligadas de desigualdade, colapso climático e perda de biodiversidade. Até expulsarmos os Grandes Poluidores, essas negociações continuarão capturadas por interesses corporativos — e o mundo seguirá pagando o preço.”
Tyrone Scott, War on Want (organização britânica de justiça global)
“O agronegócio é o principal motor do desmatamento. Era de se esperar que, com a COP30 acontecendo na Amazônia — e com todo o discurso brasileiro sobre salvar as florestas — este fosse o momento de um debate sério que colocasse o setor no centro das discussões climáticas. Afinal, não se acaba com o desmatamento sem falar das causas do desmatamento. Mas, de alguma forma, os organizadores da COP30 conseguiram uma manobra quase impressionante: falar de florestas enquanto evitam cuidadosamente qualquer discussão sobre o papel destrutivo do agronegócio. Com tantos lobistas do setor circulando pelos corredores, isso passa a fazer sentido. Sua presença desmedida faz com que o agronegócio permaneça o elefante na sala — ou melhor, o elefante na floresta.”
Teresa Anderson, ActionAid International
“Só a Bayer gasta pelo menos 50 milhões de euros por ano em lobby no mundo, o que lhes permite aplicar suas velhas e testadas estratégias em todas as esferas políticas. Como resultado, autoridades públicas, inclusive no âmbito da ONU, continuam garantindo aos Grandes Poluidores um assento à mesa. No entanto, seus bolsos fundos jamais lhes comprarão uma reputação decente junto ao público. Seja nos EUA, na África ou na Europa, a Bayer e outras empresas de agrotóxicos repetidamente fazem lobby contra os interesses das comunidades, minando a capacidade de suporte do nosso planeta.”
Nina Holland, Corporate Europe Observatory
“O aumento abrupto de lobistas do agronegócio na COP30 é alarmante. Evidencia o quanto a indústria de alimentos está se entrincheirando nas negociações climáticas. Empresas como JBS, Bayer, Nestlé e outras não estão aqui para cortar emissões; estão aqui para proteger lucros, enquanto suas operações impulsionam desmatamento e emissões de gases de efeito estufa. O fato de um quarto desses lobistas integrarem delegações governamentais mostra como a influência corporativa está enraizada nos governos. Isso levanta sérias questões sobre de quem os interesses realmente estão sendo priorizados nas negociações climáticas. É claro que precisamos de regras mais fortes dentro de um marco de responsabilização que regule conflitos de interesse. A COP deveria tratar de soluções climáticas reais, não do interesse particular das corporações.”
Brice Böhmer, Transparency International
“As corporações agroquímicas são uma parte enorme da crise que a COP30 supostamente deveria resolver: seus fertilizantes e pesticidas derivados de combustíveis fósseis geram emissões massivas e mantêm o mundo preso a um sistema fundamentalmente incompatível com o Acordo de Paris: a economia fóssil. A crescente presença de lobistas da BigAg na COP30 — inclusive dentro de delegações oficiais — cria um conflito de interesse gritante, que pode permitir que os próprios atores que alimentam o colapso climático orientem a agenda e atrasem a transição urgente para sistemas alimentares verdadeiramente sustentáveis e justos. Os Estados precisam se comprometer a eliminar os combustíveis fósseis, incluindo os agroquímicos, e reformar as negociações climáticas para enfrentar esse conflito de interesse.”
Lisa Tostado, Center for International Environmental Law
“As negociações climáticas na COP precisam definir políticas climáticas claras no âmbito da responsabilização — livres de qualquer conflito de interesse. Grandes poluidores não deveriam ter acesso à formulação dessas políticas; sua participação contribui para influenciar e minar a resposta internacional necessária. A delegação francesa conta com 449 pessoas, incluindo 22 ligadas ao setor da indústria fóssil, entre elas cinco executivos da TotalEnergies, incluindo Patrick Pouyanné, recentemente condenado pela justiça francesa por ‘práticas comerciais enganosas’, ao fazer crer que poderia atingir neutralidade de carbono em 2050 enquanto aumentava a produção de petróleo e gás. A participação de tais criminosos climáticos deve ser proibida!”
Youlie Yamamoto, Attac France
Resultados adicionais:
Em destaque: Brasil
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Um terço de todos os lobistas do setor agrícola deste ano são do Brasil, onde o agronegócio é responsável por 74% das emissões nacionais de gases de efeito estufa e cerca de 97% da perda de vegetação nativa entre 2019 e 2024, sobretudo na Amazônia e no Cerrado. O Brasil levou 26 lobistas do agronegócio —o maior número entre todos os países— como parte de sua delegação oficial, incluindo 7 representantes de empresas de carne, 4 de empresas de agrotóxicos e 2 de associações comerciais de biocombustíveis. A cúpula também recebeu 29 delegados da Confederação Brasileira de Agricultura e Pecuária (CNA), o mais influente grupo de lobby do agronegócio brasileiro, que tentou derrubar a Moratória da Soja, acordo que impede a expansão da soja sobre áreas da Amazônia.
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Grupos de lobby influentes também vieram dos Estados Unidos, maior produtor de carne do mundo. O Meat Institute (Instituto da Carne), que promove sua indústria como sustentável por meio de seu Pacto de Proteína, levou dois lobistas a Belém; outros três delegados participaram sob o guarda-chuva da Animal Agriculture Alliance (Aliança da Agricultura Animal), organização que contribuiu para impulsionar a reação contrária ao relatório EAT-Lancet sobre dietas saudáveis.
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Outros grupos setoriais presentes incluíram a National Cattlemen's Beef Association/NCBA (Associação Nacional de Pecuaristas de Carne Bovina),a National Farmers Union (União Nacional dos Agricultores) e a Beef+Lamb (Carne bovina e ovina) da Nova Zelândia —todos pressionando para que o IPCC da ONU adote uma métrica contábil enganosa chamada GWP*, que permitiria ao setor alegar ser “climaticamente neutro”.
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Dezenas de outros lobistas também estão presentes este ano na Agrizone, um pavilhão próximo ao local de negociação da ONU, com uma programação paralela de eventos organizada pela agência governamental Embrapa e copatrocinada pela Bayer, Nestlé e pela própria CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil).
Em destaque: biocombustíveis
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A Cúpula do Clima registrou um aumento expressivo na presença de lobistas da indústria de biocombustíveis, número mais que dobrou em comparação com a COP29. Grupos setoriais como a World Biogas Association (Associação Mundial de Biogás) —que representa o setor de biogás, isto é, metano capturado de fontes como esterco ou resíduos agrícolas em decomposição— enviaram mais que o dobro de delegados este ano (um crescimento de 138%). Pelo menos 18 delegados de associações comerciais brasileiras de soja e etanol estão presentes na conferência da ONU. A ABIOVE, que reúne a indústria da soja, enviou uma delegação de 11 pessoas e afirmou que promoveria os biocombustíveis —combustíveis líquidos como o etanol (produzido a partir do milho ou da cana-de-açúcar e usado como aditivo da gasolina) ou biodiesel (produzido a partir do óleo de soja). Já a entidade industrial brasileira ÚNICA —associação que representa os produtores de cana-de-açúcar, principal matéria-prima de biocombustíveis no Brasil— enviou 7 integrantes em sua delegação.
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O setor da soja, ao lado da pecuária, é um dos principais motores do desmatamento na Amazônia e no Cerrado brasileiros. A soja foi responsável por 10% do desmatamento na América do Sul ao longo de 20 anos.
O Brasil —anfitrião da COP e grande produtor de biocombustíveis— está pressionando para quadruplicar a produção desses combustíveis, apesar das críticas de que esse modelo intensivo de produção utiliza vastas extensões de terra dedicadas a monoculturas, o que provoca desmatamento e perda de biodiversidade, além de criar competição com os cultivos destinados à alimentação.
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